You are currently viewing Ainda somos inocentes personagens neste Brasil surreal – 26/07/2022


Norberto Bobbio, em sua obra O FUTURO DA DEMOCRACIA – Uma defesa das regras do jogo (Paz & Terra, 2020), nos leva a refletir sobre as contradições e fragilidades dos regimes democráticos, particularmente na adolescência do século 21.

O professor italiano será o nosso guia para este texto.

A campanha eleitoral no Brasil já caminha há quatro anos. Portanto, tivemos tempo para nos acomodarmos a ela e, mesmo assim, não nos esforçamos para compreendê-la e orientá-la.

Divisiva e personalista, atingiu um novo patamar. A partir desta semana, começam as convenções partidárias. Aqueles eventos desconectados da realidade, com personagens de um país das maravilhas a viverem em seu mundo surreal.

As festas tentam mostrar candidatos perfeitos, partidos estruturados, lideranças responsáveis, programas qualificados e ouvintes conscientes de seu papel na democracia. Surreal, pois sabemos como se configuram.

No livro, Bobbio alerta para o otimismo ingênuo dos que acreditam que os homens são antes de tudo cooperativos e que desejam, quando se oferecem para militar no corpo político, aprimorar o mundo com os valores da democracia.

Quais as razões para não podermos acreditar inocentemente nesta utopia?

– As oligarquias sobrevivem independente do partido que esteja no poder. Diariamente, a imprensa nos oferece o esforço dos grupos políticos para dominarem os cordéis do orçamento secreto.

– Os interesses particulares subsistem sobre a consciência de homem público. Como entender que deputados e senadores votem em massa na PEC Kamikaze, incluindo a oposição, por medo da perda de um futuro protegido no mandato.

– Os espaços políticos estão rigidamente definidos, impedindo a formação de novos quadros. A opção ao maniqueísmo eleitoral foi podada antes que florescesse.

– A população vive em déficit de educação, o que a impede de avaliar conscientemente seu futuro, aceitando migalhas que caem da mesa durante as refeições dos poderosos.

Esse panorama não está vinculado diretamente a qualquer viés político. Veste, como corte de alfaiate, a esquerda, a direita, os extremos ensandecidos e o centro amorfo.

No Brasil existe apenas um grupo no poder. Ele se renova, sem se renovar. Ele se sustenta nos conchavos espúrios firmados no escurinho dos restaurantes e nas mansões nababescas da capital federal.

Contra esses adversários da sadia política e necessária alternância de poder é imperativo, como declarou Bobbio, confiar na força das boas razões do homem de bem.

Devemos fugir daqueles que defendem transformar a democracia em uma entidade perfeita, destruindo-a.

Aqueles que a definem como sistema sempre frágil, vulnerável, corruptível e corrupto, mas ao ascenderem ao poder reforçam esses péssimos atributos.

A democracia, em seu estágio atual, é demagoga. Oferece o que não pode entregar. E não pode entregar, porque seus condottiere se valem dela para benefícios pessoais.

Se quisermos uma mudança que traga segurança para caminharmos em busca da paz e bem-estar sociais será preciso atuar sobre valores.

E três são fundamentais: a tolerância, a não-violência e a renovação gradual da sociedade.

Tolerância para combater a crença cega na própria verdade.

A não-violência para solução dos conflitos sociais sem o recurso da força.

A renovação gradual da sociedade por meio do livre debate de ideias e mudança das mentalidades.

Estamos a 80 dias das próximas eleições. Vamos precisar levar diariamente esses valores no bolso e usá-los sem economia.

Agrava-se o estado de coisas pela ciclotimia do poder no Brasil que já demonstrou a impossibilidade de se acreditar em mitos, de esquerda ou direita.

Precisaremos fugir da democracia plebiscitária que gerou uma Alemanha nazista e um Itália fascista e, como reflexo, o fortalecimento de um stalinismo naturalmente sem eleição. Precisaremos fugir das paixões e aceitar a camisa de força da razão.

Sendo plebiscitária, o foco nas campanhas tende a privilegiar as cadeiras executivas, em especial a do Planalto. Mas, para se iniciar uma mudança realista, ele deverá ser redirecionado para as cadeiras do legislativo federal. Os verdadeiros donos do poder.

A intervenção branca que esses políticos, há alguns anos, impõem ao chefe do executivo, débil e sempre desconfiado de que pode ser apeado do cavalo e preso na primeira curva, indica que o nosso regime de governo, há muito, não é mais o presidencialismo.

O dia 2 de outubro deve ser o marco que tanto aguardávamos. Tente algo novo para deixarmos de ser inocentes personagens de um país das maravilhas, um Brasil surreal. O velho, já o conhecemos. Até lá, resistam. Depende de nós.

Paz e bem!





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