You are currently viewing Amor não rima com dor – 24/07/2022 – Nosso estranho amor


Zeca entrou no posto de gasolina e sentiu seu coração bater forte no peito. Colocou a mão na cintura para ter certeza de que a pistola estava destravada. Não era a primeira vez que assaltava à mão armada, mas se sentia mais tenso do que de costume. Indicou a Ricardo, seu parceiro, que era hora. Ricardo renderia o rapaz que ficava no caixa e Zeca, na porta, olharia em volta. Quase onze da noite, ninguém por perto, seria simples e rápido como os demais haviam sido. Mas esse não foi.

No caixa, em vez de um rapaz, havia uma mulher e, em seu colo, uma criança. Ricardo não conseguiu apontar a pistola. Zeca percebeu que o amigo titubeava e entrou para executar o serviço. “É uma mãe com uma criança”, Ricardo disse tentando impedir a tragédia. Nessa hora, vendo que ambos estavam distraídos, a mulher abaixou para pegar uma arma, mas, antes que pudesse atirar, foi atingida. Um tiro no peito, que passou por ela e atingiu o filho que ela tentava proteger. Ricardo saiu correndo; Zeca se ajoelhou e gritou.

Preso em flagrante, Zeca foi julgado e condenado à pena máxima. Estava preso há um ano quando recebeu a visita de Antonia, que se apresentou como assistente social. Conversaram e ela foi embora. Voltou na semana seguinte. E na posterior. E nas demais.

Antonia, uma mulher que poderia ser avó de Zeca, era a primeira pessoa no mundo que se interessava por ele. Queria saber sua história, seus medos, seus desejos. Falavam da infância dele na Vila Santa Teresinha, periferia de Petrolina, do que ele gostava de brincar, da vida com os pais.

Foi assim que Antonia soube que o pai de Zeca batia nele com o que encontrasse pela frente. “Enquanto me batia, normalmente com um pedaço de pau, ele me dizia que aquilo machucava a ele mais do que a mim. ‘Só faço porque te amo’, ele repetia”

Antonia percebeu que Zeca rimava amor com dor. Um dia disse isso a ele, e Zeca concordou. “Assim foi que aprendi a amar, dona Antonia. Se não doesse, então não era amor. E quem não suportava a dor, era porque não me amava”.

Durante anos, eles se relacionaram dessa forma: visitas e conversas semanais. “Você me ensinou a amar, dona Antonia”, ele vivia dizendo a ela.

Um dia, depois de quase uma década, Antonia faltou. Zeca estranhou: a amiga estava com quase 80 anos e tinha um histórico de diabetes. Antonia voltou depois de três semanas e contou que tinha sido diagnosticada com um câncer em estágio avançado. Zeca abaixou a cabeça e chorou como nunca antes havia chorado.

“Mas quero te falar uma outra coisa, meu filho”, ela disse. Zeca levantou a cabeça. Antonia então contou que não era assistente social. Intrigado, ele quis saber por que ela havia mentido e quem era ela. “Sou a mãe e a avó das pessoas que você matou no posto. Naquela noite, não pude ficar com meu neto, e minha filha teve que levar a criança com ela para o trabalho”.

Zeca não conseguia falar. Queria fugir, mas suas pernas não respondiam. “Por quê? Por que, dona Antonia? Como a senhora não quer me matar? Não sei de mais nada nessa vida”, disse nervoso.

“Naquele dia, vim pra te matar. Não sabia como, mas precisava olhar pra você antes. Só que não consegui fazer nada a não ser tentar buscar suas razões. Ao fazer isso, eu conheci você, e já não queria mais te matar. Também não sei explicar o que mudou em mim, mas mudou”.

Os dois ficaram se olhando sem dizer nenhuma outra palavra porque há momentos em que palavras extras não comunicam mais nada. Foi assim que Zeca, depois de aprender sobre o amor, aprendeu sobre o perdão.


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