You are currently viewing Bolsonaro, o da “liberdade sem oxigênio”, chama manifesto de “cartinha” – 28/07/2022


Embora o Palácio do Planalto esteja tentando minimizar a importância dos manifestos em favor da democracia e tenha pressionado para que alguns pesos pesados da economia retirassem seus respectivos nomes dos documentos, o fato é que a ideia pegou. Um dos textos, gestado originalmente na Faculdade de Direito da USP e tornado público no fim da tarde de terça, já conta com quase 200 mil assinaturas.

Jair Bolsonaro sentiu o peso da mobilização. Referiu-se ao fato na convenção nacional do PP nesta quarta:
“Vivemos em país democrático, defendemos democracia, não precisamos de nenhuma cartinha para dizer que defendemos a democracia. Dizer que queremos cumprir e respeitar a Constituição… Não precisamos, então, de apoio ou sinalização de quem quer que seja para mostrar que nosso caminho é a democracia, a liberdade, o respeito à Constituição”.

Como se diz na minha terra, “quem não te conhece que te compre”. Desde a primeira manifestação golpista que patrocinou, no dia 26 de maio de 2019, antes de completar o quinto mês de governo, Bolsonaro fala em seguir a Constituição. E aí está o seu truque — que também se encontra na boca de militares golpistas.

O presidente da República tem a ambição de ser o grande intérprete do texto constitucional. Pior: no seu juízo torto — com o aporte, digamos, intelectual de vigaristas disfarçados de juristas —, considera que cabe às Forças Armadas dirimir eventual choque entre Poderes ou diferença de interpretação.

Assim, quando diz, na convenção, que “o nosso caminho é (sic) a democracia, a liberdade, o respeito à Constituição”, está se referindo àquilo que ele entende por democracia, liberdade e… Constituição. Bolsonaro, sabe-se, é capaz de leituras muito particulares sobre determinados temas.

Há pouco mais de um mês, falando a apoiadores em Orlando, nos EUA, afirmou este primor:
“Somos pessoas normais. Podemos até viver sem oxigênio, mas jamais sem liberdade. É com esse espírito que, ao longo de 28 anos, lutei dentro do Parlamento e, há três anos, à frente do Executivo federal”.

É espetacular. Este é o país que viu morrer doentes de Covid-19 no Amazonas justamente por falta de oxigênio. Com a substância, vive-se com ou sem liberdade, caso em que se pode lutar por ela. Sem ela, cessa a liberdade de existir. Se confrontado com a estultice, ele diria que apelou a uma figura de linguagem. Ok. Sem figura, quis dizer o quê?

Quem toma morte por liberdade — e era visível a sua satisfação ao fazer raciocínio tão especioso, como se estivesse diante de um achado filosófico — pode perfeitamente tomar ditadura por democracia.

O presidente está obviamente errado, e uma fala como essa é truque, soprado pelos Ciros Nogueiras da vida, para tentar desmobilizar a sociedade — mobilização que está apenas no começo. Sabe que toda declaração golpista que fizer, a partir de agora, só servirá para engrossar o cordão dos que defendem a democracia. Então se finge de sonso ou de inocente para ver se consegue distrair os tontos.

Enquanto se tinha a impressão de que a democracia era matéria que interessava apenas às esquerdas e àqueles que fazem oposição a seu governo, o “Mito” distribuiu ameaças a três por quatro. Quando, no entanto, se ouve a voz da sociedade civil — e nela também estão empresários e banqueiros —, aí se tem uma realidade nova. Os discursos de Bolsonaro tentando mobilizar o capital numa guerra santa contra Lula seduziram apenas os bucaneiros de sempre.

Além do manifesto nascido na USP, que será lido na Faculdade de Direito no dia 11 de agosto, um outro virá à luz. E este será assinado por entidades empresariais, como Fiesp e Febraban. Dois golpes legiferantes já foram dados em favor de Bolsonaro. Ainda assim, se ganhar, toma posse. A dificuldade seria governar o país que ele destruiu com tanta determinação.

É o atual presidente da República a anunciar a disposição de impedir a posse do eleito caso o adversário vença. E repete obsessivamente: “Respeitando as quatro linhas da Constituição”. Bolsonaro e alguns dos fanáticos que o cercam querem inventar “o golpe que salva a democracia” — a democracia deles…

Precisamos, sim, de manifestos. De manifestos e de mobilização. Ou o regime democrático morre. E Bolsonaro será o coveiro, com o auxílio de Arthur Lira e Ciro Nogueira.





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