You are currently viewing Culturas populares negras na mídia – 19/07/2022 – Quadro-negro


As mídias ocupam um papel perverso no processo de apagamento e exclusão da identidade negra e de suas tradições diariamente. O Brasil que trás um histórico de quase quatro séculos de escravidão como política econômica de Estado, um projeto de branqueamento do povo negro e indígena através da miscigenação apresentada como prova de democracia racial – que na verdade serviu como escudo para branquitude evitar o reconhecimento da população negra – é um país que ainda hoje se apropria da cultura de forma violenta e a invisibiliza.

Parte das culturas de origem africanas apoderadas pela hegemonia branca, são transformadas de tal forma que apagam seu sentido de origem e seu significado cultural, e só passam a ser aceitas sendo reconhecidas como “cultura brasileira”. O samba, por exemplo, forte símbolo das tradições ancestrais, perseguido e marginalizado, tido como vadiagem no começo do século XX após a abolição, é desafricanizado na década de 1930 e exportado como parte da cultura brasileira.

É notória esta construção nos veículos de mídia, imprensa e programas de TV: o que é apropriado passa a ser um conteúdo único e as demais manifestações oriundas do povo negro que não passaram pelo processo de apropriação e aprovação da branquitude, são subalternizadas tidas como folclóricas e temáticas. Onde estão os Jongos, os Reizados, as Congadas, os Cavalos Marinhos, os Cocos, os Maracatus, e tantas outras culturas populares afro-brasileiras nas mídias?

No cenário midiático, com relação à comédia, os corpos negros são ridicularizados e estereotipados através do racismo recreativo, tratando o riso como uma coisa inocente e inofensiva, mas na verdade, é uma forma de inferiorizar a população negra e indigena, camuflando o racismo. O termo “humor negro” vindo da França, que no Brasil é relacionado ao humor ácido, piadas de “mau gosto” e temas ainda considerados tabus, também é uma maneira de depreçiar o negro, associando-o a coisas ruins. O apagamento histórico já está registrado, quando a gente se pergunta: onde estão os prêmios e ou reconhecimento em vida dos artistas negros da comédia, dos mestres de cultura popular e das artes indígenas?

Neste contexto, acontece o encontro da equipe ‘Catappum’. Inicia-se com as histórias de formação dos atores palhaços Chico Vinícius e Fagner Saraiva, ambos imigrantes, que chegaram em São Paulo em busca de formação em artes. O coletivo ‘Catappum’ surgiu por incômodo de ambos os artistas, pela falta de representatividade não só na palhaçaria, mas nas artes cênicas como um todo e consequentemente na mídia. Foi assim que aprofundamos nossas pesquisas nas estéticas, nos pensamentos e referências pretas nas artes, firmando a palhaçaria preta, com o desejo de iluminar o picadeiro com nossas ancestralidades, trazendo novas referências identificatórias e construindo um terreno de confronto político, tendo o riso como estratégia de resistência para se opor a esse processo de apagamento histórico.

Nossa primeira grande inspiração foi o palhaço Negro Benjamin de Oliveira, artista múltiplo que, passou por grandes companhias de circo internacionais, nomeado o “Rei dos Palhaços” no Brasil e reconhecido e respeitado para além dos limites do território circense. Foi acrobata, mímico, dramaturgo, diretor, produtor, ator, adaptador de clássicos, músico, instrumentista, cantor e compositor de lundus e chulas. Espelho para o coletivo ‘Catappum’, pela faculdade de sevirologia natural (termo utilizado por José Soró) que explica Cleiton Ferreira de Souza (Fofão) em sua tese “Sevirologia: A arte de sobreviver e construir um território educador”.

Ao longo da pesquisa o coletivo ‘Catappum’, foi encontrando parceires na caminhada que também utilizam do circo e da comédia como ferramentas para a resistência: Vanessa Rosa com o ‘Terreiros do Riso’ que é como nomeia suas vivências no campo das comicidades negras, pensando a partir de matrizes e motrizes de manifestações afrobrasileiras; Cibele Mateus com a pesquisa de ‘Mateus’, figura cômica da brincadeira de cavalo marinho da zona da mata de Pernambuco, que pinta sua cara de preto como vestimenta da sua ancestralidade; Trupe Liúdes da Comunidade cultural Quilombaque, de Perus, zona Noroeste de São Paulo, com a palhaçaria negra, trazendo as vivências do território da quebrada e além de filósofos e filósofas negres, como Katiúscia Ribeiro, Roseane Borges, Muniz Sodré, Lélia Gonzalez, Professor Silvio Almeida, Djamila Ribeiro, Leda Maria Martins e entre outres que levantam inquietações e questionamentos que ficaram adormecidos nesta estrutura racista.

Enfrentamos dentro desta estrutura racista vários desafios para desenvolver Arte Negra, como por exemplo ser contemplados nos editais de políticas públicas, que não atendem as demandas dos grupos de culturas populares, afro brasileiras e periféricas. Outro desafio é a negação das especificidades da palhaçaria preta e da arte negra, existe uma tentativa de nos categorizar, dizendo que “palhaçaria é palhaçaria, arte é arte”, não existe distinção, mas, é sempre tudo pautado no pensamento e em estéticas eurocentradas. Como advoga a filósofa Katiúscia Ribeiro “toda vez que a gente precisa colocar o adjetivo “negro” em qualquer ideologia política é porque não foi pensado para nós.”

Por outro lado este aquilombamento de arte negra, nos coloca mais próximos de nossas ancestralidades retomando nossas narrativas, são as culturas populares e afro brasileiras que trazem o deslocamento para descolonizar a arte em sua totalidade. A arte negra é política e se opõe a este processo midiático racista que deslegitima colocando-a no lugar do entretenimento, sem aprofundar as múltiplas narrativas da arte afro-brasileira e afroindígena, não contextualizando suas histórias. Esse mecanismo ainda é o reflexo do dia 14 de maio, dia posterior a tal abolição formal da escravatura que deixou a população negra desassistida, sem nenhum projeto de integração na sociedade que segue em curso exaltando a mestiçagem e normatizando o racismo.

As mídias negras têm desempenhado um papel fundamental nos registros e na reconstrução de memórias coletivas, denúncias, debates, documentações e ações permanentes na luta contra o apagamento e pelo protagonismo do povo negro. Atualmente os produtores, diretores e empresários/as do entretenimento no Brasil vêm reconfigurando estas narrativas de mídia, como por exemplo a chegada da Trace Brasil que traz um conteúdo afro-brasileiro e exalta as culturas afro-urbanas do nosso território. Temos também a Wolo.tv, que vem em forma de streaming com séries e filmes roterizados, dirigidos e atuados por artistas negros. Afro Tv que valoriza o conteúdo afro-brasileiro dando visibilidade a cultura e o entretenimento que não fazem parte dos grandes grupos de mídia.

Se faz necessário e urgente coberturas comprometidas das grandes mídias com o antirracismo, tanto no seu corpo jornalístico como em suas pautas, para alcançarmos a emancipação coletiva no país onde 54% da população é negra.



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