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Tua denúncia é que grandes grupos econômicos, fundamentalmente estrangeiros, são os que manipulam poupanças e vidas.
No Chile existem sete Administradoras de Fundos de Pensão, sendo que quatro delas capturam o grosso das poupanças dos trabalhadores, três de capital estadunidense: MetLife, companhia de seguro dona da ProVida; Principal Financial, dona de Cuprum; e Prudential, dona de Habitat. Então temos três grandes companhias seguradoras impulsionando os fundos de investimento dos Estados Unidos e que têm aplicado no sistema financeiro fora do país quase a metade da economia total, cerca de US$ 90 bilhões. Isso é muito dinheiro e ainda mais para um país pequeno como o Chile. Estão investidos em instrumentos financeiros como ações e títulos de dívida no exterior. Para dizer mais claramente: uma parte importante da classe operária chilena e dos trabalhadores está destinando uma fração expressiva do seu salário, que deveria ser economizado para custear o seu melhor envelhecimento, que deveria retornar em qualidade de vida na sua aposentadoria, para financiar a expansão do capital dos países imperialistas. Isso é um completo absurdo, algo inexplicável.

“Das quatro AFPs que capturam o grosso da poupança dos trabalhadores chilenos, três são de capital estadunidense”

Porque nada justifica que o Chile, país que necessita de tantos investimentos em áreas tão importantes para decolar de seu subdesenvolvimento – e não seja um país dependente – tenha a humanidade de seus trabalhadores financiando a expansão do capital dos Estados Unidos e de países avançados. Isso é ridículo, uma burla, a expressão mais concreta da crise do capitalismo. Como é possível para os teóricos defensores deste modelo continuarem explicando esse fenômeno: a transferência de recursos dos países emergentes para os países ricos? Isso é a nova era do capitalismo financeiro. Mais do que transferir trabalho acumulado, estamos transferindo vidas humanas.

No passado se entregavam as grandes minas, as empresas estratégicas, hoje entregam nossas principais matérias-primas, que são as vidas humanas. Enquanto financiamos as grandes companhias dos Estados Unidos e da Europa, em nossos países falta muito e de tudo: moradia, transporte de qualidade, trens para interligar nossas cidades, e que deveriam ser um investimento importantíssimo no caso chileno.

No entanto não se investe aí porque os grandes capitais que capturam nossas economias, que capturam nossas poupanças, preferem investir rapidamente no sistema financeiro. Investem aí porque a rentabilidade proporcionada pela especulação é muito mais alta do que no setor produtivo, do que na economia real – que gera salário, empregos e desconcentra renda.

Neste momento, qual o espaço que esta agenda desenvolvimentista, vinculada à aprovação da nova Constituição, está tendo na mídia?
A verdade é um pouco trágica. Não temos praticamente nenhuma possibilidade de poder debater estes temas que estamos conversando nos meios de comunicação chilenos. Durante os três anos depois que o movimento NO+AFP saiu às ruas tivemos muita cobertura e fomos chamados praticamente todos os dias para dar entrevistas. Mas cerca de dois anos atrás passou a ser zero a possibilidade, há uma campanha de invisibilidade total. Os poderosos compreendem que sem comunicação tuas propostas inexistem. Sendo assim, não existimos, nem campo fértil para novas ideias. Ficam excluídos do debate os grandes temas: a Constituição, a Seguridade Social e o que acontece com a poupança dos trabalhadores, que é o mais determinante do país.

Então qual é a discussão que toma a opinião pública? É que se aumentamos um percentual na cobrança do sistema previdenciário tantos porcento podem vir a ser partilhados solidariamente, outro tanto pode ser destinado à capitalização individual… Seguimos repetindo a velha lógica, o debate fica restrito à sua pauta.

“A mídia invisibiliza os danos sofridos pelos países do Leste Europeu que haviam seguido as orientações do FMI e do Banco Mundial: a multiplicação de miseráveis”

Não se discute o que ocorreu nos países do Leste Europeu que desprivatizaram o sistema depois que seguiram as orientações do Fundo Monetário Internacional (FMI) e, sobretudo, do Banco Mundial. Aqueles países logo viram que a privatização gerou um aumento dos gastos públicos, uma concentração descomunal da propriedade em poucas mãos e a multiplicação de miseráveis. Por isso acabaram com esse sistema. Simplesmente ocultam, não discutem.

Então a NO+AFP, que foi um movimento importante no país, que gerou a explosão social chilena, o levante de 18 de outubro, vem sendo absolutamente invisibilizado. Agora estão empenhados em esconder o debate sobre a Constituinte, que não se trata de aprovar ou rechaçar, mas do que tem por detrás, do seu significado para o desenvolvimento do país. Porque a nova Constituição não resolverá nossos problemas de forma automática. Não é pelo fato de aprová-la que teremos no outro dia Seguridade Social, Saúde pública, investimentos em moradia… Mas os conteúdos desse novo cenário que se abre depois da aprovação devem ser preenchidos por dirigentes dos movimentos sociais que comecem a dar substância ao processo.

A estratégia da direita contra a ex-Concertação, que governou o país [durante quatro administrações de 1990 a 2010] foi justamente esvaziar de conteúdos a luta política que seguia, buscando limitá-las, circunscrevê-las às questões mais superficiais, mas sempre, no final, abrindo mão de recursos do Estado para seguir subsidiando e financiando operações do campo privado sem nenhuma contemplação, um verdadeiro saque do país.

Além disso, nos enfrentamos com algo grave, com uma esquerda absolutamente carente de ideias, de força e convicção para defender os direitos e interesses dos nossos povos, que capitula, que se mostra ausente. É preciso reflexão sobre os grandes temas que dizem respeito ao planeta, à mudança tecnológica, ao sistema financeiro, não podemos ceder e nos acomodar. Mais do que nunca precisamos de uma esquerda com firmeza e formação para que não haja vacilação em defender propostas e propor grandes projetos políticos, econômicos e sociais de transformação.

Nesta reta final da campanha pelo Aprovo como os movimentos sociais têm feito para levar sua palavra às ruas?
Está sendo uma luta muito difícil porque não contamos com os recursos nem com os meios de comunicação. Mas os movimentos sociais contam com algo que eles não têm: a força moral, a capacidade de sensibilizar a potência da solidariedade, ingredientes que são suficientes para gerar uma resistência.

Não é tampouco uma relação causa-efeito, sabemos que dependerá ainda de vários fatores. Estamos viajando agora para o Norte e o Sul, contando com nossos modestos recursos, para aglutinar, potencializar e organizar as pessoas.

A primeira tarefa que temos no dia 4 de setembro é votar no Aprovo, é garantir a vitória da nova Constituição, porque uma derrota geraria um golpe moral muito grande à cidadania. Então a primeira questão é a aprovação da nova Constituição. Temos um novo governo [do presidente Gabriel Boric] que chegou prometendo restituir direitos e estamos pressionando para que materialize essas reformas. Estamos convencidos de que precisamos ganhar e é para isso que dedicamos o melhor das nossas forças. O Chile e seu povo precisam.

Leonardo Wexell Severo, jornalista e colaborador da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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