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Pode-se dizer que Putin e o Conselho de Segurança da Rússia estão a implementar uma tática trifecta que reduziu o ocidente coletivo a um bando amorfo de galinhas sem cabeça.

A trifecta mistura a promessa de negociações – mas só quando considera os firmes avanços da Rússia sobre o terreno na Novorússia; o fato de que o “isolamento” global da Rússia demonstrou-se na prática como absurdo; e o ajuste do indicador de sofrimento mais visível para todos eles: a dependência europeia da energia russa.

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A principal razão para o fracasso estrondoso da cúpula do G20 de ministros de Negócios Estrangeiros em Bali é que o G7 – o NATOstão mais a colónia americana do Japão – não puderam forçar o Brics mais os grandes atores do Sul Global a isolar, sancionar e/ou demonizar a Rússia.

Pelo contrário: múltiplas interações fora do G20 explicitam ainda mais a integração por toda a Eurásia. Aqui estão alguns exemplos:

INSTC.

O primeiro transporte de produtos russos para a Índia através do International North-South Transportation Corridor (INSTC) agora de fato cruza a Eurásia desde Bombaim até o Báltico, via portos iranianos (Chabahar ou Bandar Abbas), o Mar Cáspio e o sul e centro da Rússia. A questão crucial é que a rota é mais curta e mais barata do que através do Canal de Suez.

Em paralelo, o governador do Banco Central Iraniano, Ali Salehabadi, confirmou que foi assinado um memorando de cooperação interbancária entre Teerão e Moscou.

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Isso significa uma alternativa viável ao SWIFT e uma consequência direta da solicitação do Irã de se tornar membro pleno do BRICS, anunciada na cúpula recente em Pequim. O BRICS, desde 2014, quando foi fundado o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), tem estado ocupado a construir a sua própria infraestrutura financeira, incluindo no futuro próximo a criação de uma única divisa de reserva. Como parte do processo, a harmonização dos sistemas bancários russo e iraniano é inevitável.

O Irã também está prestes a tornar-se membro pleno da Organização de Cooperação de Shangai (SCO) na próxima cúpula de Setembro em Samarcanda.

Em paralelo, a Rússia e o Cazaquistão estão a consolidar sua parceria estratégica: o Cazaquistão é um membro chave da BRI (Belt and Road Initiative), da EAEU e da SCO.

A Índia aproxima-se cada vez mais da Rússia em todo o espectro do comércio – incluindo a energia.

Isolamento? Realmente?

Na frente energética, ainda é verão mas a paranoia demencial já devasta todas a múltiplas latitudes da UE, especialmente a Alemanha. Um alívio cômico é providenciado pelo fato de que a Gazprom pode sempre destacar junto a Berlim que eventuais problemas de abastecimento no Nord Stream 1 – após a novela em capítulos do retorno daquela notória turbina reparada no Canadá – pode sempre ser resolvido pela implementação do Nord Stream 2.

Como todo o Espetacular Show de Verão do Suicídio Europeu, nada mais é senão uma espalhafatosa tortura auto-infligida ordenada por His Master’s Voice. A única questão séria é qual nível no indicador de sofrimento forçará Berlim a realmente sentar-se e negociar em prol dos legítimos interesses industriais e sociais alemães.

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Luta de foice será a norma. O ministro russo Lavrov resumiu tudo isto ao comentar o Declínio do Ocidente Coletivo, enquanto seus ministros comportam-se como pirralhos em Bali para evitarem serem vistos com ele: aquele era “o seu entendimento dos protocolos e da polidez”.

Isso é conversa diplomática para “bandos de imbecis”. Ou pior: bárbaros culturais, pois eles foram incapazes de respeitar os hiper-polidos hospedeiros indonésios, os quais abominam a confrontação.

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Lavrov prefere exaltar o trabalho “estratégico e construtivo conjunto russo-chinês quando confrontado com um ocidente muito agressivo. E isso nos traz para a primeira obra-prima do teatro de sombras em Bali – completo com várias camadas de nevoeiro geopolítico.

Os media chineses, sempre a flertarem com o opaco, tentaram apresentar a sua cara mais corajosa de sempre ao retratarem como “construtiva” a reunião de mais de 5 horas entre o ministro chinês Wang Yi e o secretário Blinken.

O fascinante aqui é que os chineses acabaram por deixar escapar algo crucial no texto do seu relatório final – obviamente aprovado pelos poderes em vigor.

Lu Xiang, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, passou por leituras anteriores – especialmente do “Yoda” Yang Jiechi, que habitualmente transforma Jake Sullivan em pato assado – e enfatizou que desta vez as “advertências” de Wang aos americanos foram “as de formulação mais severa”.

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Isso é o código diplomático para “é melhor você ter cuidado”: Wang, a dizer ao pequeno Blinkie, “basta ver o que os russos fizeram quando perderam a paciência com as suas travessuras”.

A expressão “beco sem saída” era recorrente durante a reunião Wang-Blinken. Assim, o Global Times acabou por contar o que realmente se passa: “Os dois lados estão perto de um confronto”.

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“Confronto” é o que o fanático de End of Days e o aspirante a [gangster] Tony Soprano Mike Pompeo prega fervorosamente do seu púlpito de ódio, enquanto o pequeno grupo por trás do senil “líder do mundo livre” que literalmente lê teleprompters, trabalha ativamente para o esmagamento da UE – de mais de uma maneira.

O pequeno grupo no poder em Washington realmente “apoia” a unificação da Grã-Bretanha, Polônia, Ucrânia e Os Três Anões Bálticos como uma aliança separada da NATO/UE – tendo em vista o “fortalecimento do potencial de defesa”. Essa é a posição oficial do embaixador dos EUA junto a NATO, Julian Smith.

De modo que o objetivo imperial real é dividir a já estilhaçada UE em peça de mini-união, todas elas bastante frágeis e evidentemente mais “manejáveis”, enquanto os eurocratas de Bruxelas, cegos pela mediocridade ilimitada, obviamente não veem o que está para vir.

O que o Sul Global está a comprar

Putin sempre deixou muito claro que a decisão de lançar a Operação Z – como uma espécie de “operação combinada de arma e política” antecipativa, como definido por Andrei Martyanov, foi cuidadosamente calculada, considerando um conjunto de vetores materiais e sócio-psicológicos.

A estratégia anglo-americana, por sua vez, concentra-se numa única obsessão: condenar qualquer possível reestruturação da atual “ordem internacional baseada em regras”. Nenhum obstáculo é proibido para assegurar a perpetuidade desta ordem. Isto é de facto Totalen Krieg – caracterizada por várias camadas híbridas e bastante preocupante, apenas a uns poucos segundos da meia-noite.

E aí está o problema. O Corredor da Desolação está rapidamente a tornar-se o Corredor do Desespero, quando toda a matriz russofóbica se mostra nua, destituída de qualquer poder de fogo ideológico – e mesmo financeiro – para “vencer”, além de despachar uma coleção de HIMARS para um buraco negro. [2]

Geopoliticamente e geoeconomicamente, a Rússia e a China estão em vias de comer o NATOstão vivo – de mais de um modo. Aqui, por exemplo, está um roteiro sintético de como Pequim tratará a próxima etapa do desenvolvimento de alta qualidade através do aperfeiçoamento industrial orientado pelo capital, concentrando-se na otimização de cadeias de abastecimento, substituição de importações de tecnologias hard e em “campeões invisíveis” da indústria.

Se o ocidente coletivo está cego pela russofobia, o êxito governante do Partido Comunista Chinês – o qual numas poucas décadas melhorou a vida de mais pessoas do que em qualquer outro tempo da História – deixa-o completamente louco.

Não há muito, em 2013, junto à torre de vigia Rússia-China, Xi Jinping lançava a BRI. Após o Maidan em 2014, Putin lançou a União Econômica da Eurásia (EAEU), em 2015. Crucialmente, em maio de 2015, uma declaração conjunta Rússia-China selava a cooperação entre a BRI e a EAEU, com o papel significativo assinalado à SCO.

A integração mais estreita avançou com o fórum de S. Petersburgo em 2016 e o fórum da BRI em 2017. O objetivo geral: criar uma nova ordem na Ásia e por toda a Eurásia, de acordo com o direito internacional e mantendo as estratégias individuais de desenvolvimento de cada país e respeitando sua soberania nacional.

Isto, em essência, é o que a maior parte do Sul Global está a comprar. É como se houvesse um entendimento instintivo transfronteiriço de que a Rússia e a China, contra sérios obstáculos e enfrentando graves desafios, a atuarem por ensaio e erro, estão na vanguarda do Choque do Novo, ao passo que o ocidente coletivo, nu, atordoado e confuso, com as suas massas completamente zumbificadas, é sugado para dentro do turbilhão da desintegração psicológica, moral e material.

Não há dúvida de que o indicador de sofrimento será agravado, de mais de uma maneira.





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