You are currently viewing Em cúpula com Irã e Turquia, Rússia eclipsa Ocidente e avança na integração eurasiática


Irã diz ‘não’ à Otan

Khamenei, sobre a Otan, disse a verdade: “Se o caminho está aberto para a Otan, então a organização não vê fronteiras. Se não fosse barrada na Ucrânia, depois de um tempo iniciaria uma guerra sob o pretexto da Crimeia”.

Não houve vazamentos sobre o impasse do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA) entre os EUA e o Irã – mas está claro, com base nas recentes negociações em Viena, que Moscou não irá interferir nas decisões nucleares de Teerã. Teerã, Moscou e Pequim não apenas estão plenamente cientes sobre quem está impedindo o JCPOA de voltar aos trilhos, como também enxergam como esse processo de estagnação contraproducente impede que o Ocidente coletivo tenha acesso ao petróleo iraniano.

Assista na TV Diálogos do Sul

Depois, há a frente de armas. O Irã é um dos líderes mundiais na produção de drones: Pelican, Arash, Homa, Chamrosh, Jubin, Ababil, Bavar, drones de reconhecimento, drones de ataque, até drones kamikaze, baratos e eficazes, principalmente implantados distribuídos a partir de plataformas navais na Ásia Ocidental.

A posição oficial de Teerã não é fornecer armas para nações em guerra – o que, em princípio, invalidaria a desonesta intel dos EUA sobre fornecimento iraniano à Rússia no contexto da guerra na Ucrânia. No entanto, isso sempre pode acontecer fora do radar, considerando que Teerã está muito interessado em comprar sistemas russos de defesa aérea e caças de última geração. Após o fim do embargo imposto pelo Conselho de Segurança da ONU, a Rússia pode vender ao Irã qualquer arma convencional que achar melhor.

Os analistas militares russos estão fascinados pelas conclusões às quais chegaram os iranianos de que não teriam chance contra uma armada da Otan. Em essência, eles apostam na tática de guerrilha pró-nível (uma lição aprendida no Afeganistão). Na Síria, no Iraque e no Iêmen, eles enviaram treinadores para orientar os aldeões em sua luta contra os jihadistas salafistas; produziram dezenas de milhares de rifles de precisão de grosso calibre, ATGMs (míssil antitanque) e térmicas; e, claro, aperfeiçoaram suas linhas de montagem de drones (com excelentes câmeras para vigiar as posições dos EUA).

Tudo isso sem mencionar que, simultaneamente, os iranianos estavam construindo mísseis de longo alcance de alta capacidade. Não é de se admirar que os analistas militares russos estimem que há muito a aprender taticamente com os iranianos – e não apenas na frente de drones.

O balé Putin-Sultão

Agora, para o encontro entre Putin e Erdogan – sempre um balé geopolítico que chama a atenção, especialmente considerando que o Sultão ainda não decidiu embarcar no trem de alta velocidade da integração da Eurásia.

Putin diplomaticamente “expressou gratidão” pelas discussões sobre questões de alimentos e grãos, enquanto reiterava que “nem todas as questões sobre a exportação de grãos ucranianos dos portos do Mar Negro foram resolvidas, mas houve progresso”.

O mandatário russo estava se referindo ao ministro da Defesa de Turkiye, Hulusi Akar, que no início desta semana garantiu que a criação de um centro de operações em Istambul, o estabelecimento de controles conjuntos na saída do porto e pontos de chegada e o monitoramento cuidadoso da segurança da navegação nas rotas de transferência, são questões que devem ser resolvidas nos próximos dias.

Aparentemente, Putin e Erdogan também discutiram o Alto Carabaque (sem detalhes).

De volta à Guerra Fria, G7 insiste em discurso maniqueísta para atingir China e Rússia

O que alguns vazamentos certamente não revelaram é que na Síria, para todos os efeitos práticos, a situação está bloqueada. Isso favorece a Rússia – cuja principal prioridade é Donbass. Wily Erdogan sabe disso – e é por isso que ele pode ter tentado extrair algumas “concessões” sobre “a questão curda” e o Alto Carabaque. O que quer que Putin, o secretário do Conselho de Segurança da Rússia Nikolai Patrushev e o vice-presidente Dmitry Medvedev possam realmente pensar sobre Erdogan, eles certamente avaliam como é inestimável cultivar um parceiro tão errático capaz de conduzir o oeste coletivo completamente desnorteado.

Istambul neste verão foi transformada em uma espécie de Terceira Roma, pelo menos para os turistas russos expulsos da Europa: eles estão em toda parte. No entanto, o desenvolvimento geoeconômico mais crucial nos últimos meses é que o colapso provocado pelo Ocidente das linhas de comércio e abastecimento ao longo das fronteiras entre a Rússia e a UE – do Báltico ao Mar Negro – finalmente destacou a sabedoria e o senso econômico do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INTSC): um grande sucesso de integração geopolítica e geoeconômica entre Rússia, Irã e Índia.

Quando Moscou fala com Kiev, fala via Istambul. A Otan, como bem sabe o Sul Global, não faz diplomacia. Assim, qualquer possibilidade de diálogo entre russos e alguns ocidentais instruídos ocorre na Turquia, Armênia, Azerbaijão e Emirados Árabes Unidos. A Ásia Ocidental, bem como o Cáucaso, aliás, não aderiu à histeria das sanções ocidentais contra a Rússia.

Diga adeus ao ‘cara do teleprompter’

Agora, compare tudo isso com a recente visita do chamado “líder do mundo livre” à região, que alegremente alterna entre apertar a mão de pessoas invisíveis para ler – literalmente – o que está rolando em um teleprompter. Estamos falando do presidente dos EUA, Joe Biden, é claro.

Fato: Biden ameaçou o Irã com ataques militares e, como mero suplicante, implorou aos sauditas que bombeassem mais petróleo para compensar a “turbulência” nos mercados globais de energia causada pela histeria coletiva de sanções do Ocidente. Contexto: há flagrante ausência de qualquer visão ou qualquer coisa que se assemelhe a um rascunho de estratégia de política externa para a Ásia Ocidental.

Assim, os preços do petróleo saltaram em alta após a viagem de Biden: o petróleo Brent subiu mais de 4%, para US$ 105 o barril, trazendo os preços novamente acima de US$ 100 após uma pausa de vários meses.

Assista na TV Diálogos do Sul

O cerne da questão é que, se a OPEP ou a OPEP+ (que inclui a Rússia) decidirem aumentar seus suprimentos de petróleo, eles o farão com base em suas deliberações internas, e não sob pressão excepcional.

Quanto à ameaça imperial de ataques militares ao Irã, ela se qualifica como pura demência. Todo o Golfo Pérsico – para não mencionar toda a Ásia Ocidental – sabe que se EUA e Israel atacassem o Irã, a retaliação feroz simplesmente evaporaria com a produção de energia da região, com consequências apocalípticas incluindo o colapso de trilhões de dólares em derivados.

Biden então teve a ousadia de dizer: “Fizemos progressos no fortalecimento de nossas relações com os estados do Golfo. Não deixaremos um vácuo para que a Rússia e a China preencham o Oriente Médio”.

Bem, na vida real é a “nação indispensável” que se transformou em um vácuo. Apenas vassalos árabes comprados e pagos – a maioria deles monarcas – acreditam na construção de uma “Otan árabe” (copyright do rei Abdullah da Jordânia) para enfrentar o Irã. A Rússia e a China já estão por toda parte na Ásia Ocidental e além.

Desdolarização, não apenas integração eurasiana

Não é apenas o novo corredor logístico de Moscou e São Petersburgo a Astracã – e depois, por meio do Cáspio, a Ezeli no Irã e a Mumbai – que está agitando as coisas. Trata-se de aumentar o comércio bilateral que contorne o dólar americano. É sobre o Brics+, do qual Turquia, Arábia Saudita e Egito estão loucos para fazer parte. É sobre a Organização para Cooperação de Xangai (SCO), que aceita formalmente o Irã como membro pleno em setembro próximo (e em breve também a Bielorrússia). Trata-se do Brics+, da SCO, da ambiciosa Iniciativa Cinturão e Franja da China (BRI) e da União Econômica Eurasiática (EAEU), interconectadas no caminho para uma Parceria da Grande Eurásia.

A Ásia Ocidental ainda pode abrigar uma pequena coleção de vassalos imperiais com soberania zero que dependem da ‘assistência’ financeira e militar do Ocidente, mas isso é passado. O futuro é agora – com os três principais Brics (Rússia, Índia, China) coordenando lenta, mas seguramente, suas estratégias sobrepostas em toda a Ásia Ocidental, com o Irã envolvido em todas elas.

E depois há o Grande Quadro Global: quaisquer que sejam as circunvoluções e os esquemas tolos, inventados pelos EUA, de variedade no “teto do preço do petróleo”, o fato é que Rússia, Irã, Arábia Saudita e Venezuela – as mais poderosas nações produtoras de energia – estão absolutamente em sincronia: na Rússia, no ocidente coletivo e nas necessidades de um mundo multipolar real.

Pepe Escobar | Jornalista investigativo
Tradução de Guilherme Ribeiro


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

Assista na TV Diálogos do Sul


Se você chegou até aqui é porque valoriza o conteúdo jornalístico e de qualidade.

A Diálogos do Sul é herdeira virtual da Revista Cadernos do Terceiro Mundo. Como defensores deste legado, todos os nossos conteúdos se pautam pela mesma ética e qualidade de produção jornalística.

Você pode apoiar a revista Diálogos do Sul de diversas formas. Veja como:

  • PIX CNPJ: 58.726.829/0001-56 

  • Cartão de crédito no Catarse: acesse aqui
  • Boletoacesse aqui
  • Assinatura pelo Paypalacesse aqui
  • Transferência bancária
    Nova Sociedade
    Banco Itaú
    Agência – 0713
    Conta Corrente – 24192-5
    CNPJ: 58726829/0001-56

       Por favor, enviar o comprovante para o e-mail: [email protected] 





Source link

Deixe um comentário