You are currently viewing Extrema direita e Al Qaeda, separados no nascimento – 23/07/2022 – Reinaldo José Lopes


O gentil leitor talvez já tenha ouvido falar de um negócio chamado Teoria da Ferradura. Segundo essa ideia, os pontos extremos do espectro político —os membros dos grupos mais radicais de direita e de esquerda, digamos— teriam ideias de jerico e comportamentos reprováveis muito semelhantes entre si.

Nazismo e comunismo seriam apenas faces da mesma moeda, e por aí vai. Acontece que, ao menos no que diz respeito à violência política praticada mundo afora nos últimos 50 anos, essa ideia não corresponde aos fatos. A extrema direita tem sido claramente mais agressiva e letal.

Essa é uma das principais conclusões de um estudo que acaba de sair no periódico especializado PNAS, ligado à Academia Nacional de Ciências dos EUA. Em sua análise, os autores do estudo incluíram ainda dados sobre atos de violência praticados por extremistas islâmicos, concluindo que, em território americano, a extrema direita empata com eles nesse aspecto. Globalmente, as organizações extremistas muçulmanas têm sido mais letais, com os radicais de direita em segundo lugar.

Antes que alguém saia por aí xingando os “cientistas comunistas” autores do estudo, é bom lembrar que esses resultados não saíram do nada. Conforme lembra a equipe do estudo, que inclui Katarzyna Jasko, da Universidade Jagielloniana, na Polônia, e Gary LaFree, do Departamento de Criminologia da Universidade de Maryland (EUA), já existe um debate considerável na literatura científica sobre as predisposições psicológicas e comportamentais diferentes de pessoas que aderem à direita e à esquerda.

Em média, quem simpatiza com ideologias mais radicais de direita demonstra mais dogmatismo, mais apoio à ideia de que certos grupos são socialmente dominantes e mais hostilidade a quem viola normas, fatores que podem desembocar em comportamentos violentos.

Nem todos os estudos, porém, mostram essas associações. Por isso, Jasko, LaFree e seus colegas decidiram analisar duas grandes bases de dados. A primeira, exclusiva dos EUA, catalogou 1.563 indivíduos ligados a crimes ideologicamente motivados (tanto violentos quanto não violentos) em território americano entre 1948 e 2018.

Quase 90% dos “fichados” são homens; 59% são ligados a grupos de direita, 23% a grupos de esquerda e 18% a grupos islâmicos. Quando comparados aos militantes de esquerda, os de direita tinham probabilidade 70% maior de se envolver com crimes violentos. Já a comparação entre ultradireitistas e radicais islâmicos mostrou que essa probabilidade é semelhante para ambos os grupos.

No passo seguinte do estudo, a equipe analisou os dados da GTD (sigla inglesa de Base de Dados do Terrorismo Global), que catalogou 182 mil atentados pelo mundo entre 1970 e 2017, dos quais 55% tiveram o grupo responsável identificado. No caso da GTD, embora a frequência se inverta, com atentados de grupos de esquerda e islâmicos mais frequentes que os de grupos de direita, a letalidade dos ataques de extrema direita é consideravelmente maior. Mortes ocorrem em ações terroristas de radicais de direita em 35% dos casos, contra 23% dos praticados por extremistas de esquerda e em 55% dos organizados por grupos islâmicos.

Não existem formas aceitáveis de violência política, seja lá qual ideologia defendam seus perpetradores. Mas não deixa de ser irônico que a paranoia da extrema direita com o terrorismo islâmico derive do fato de que, no fundo, eles são farinha do mesmo saco. É urgente entender as razões sociais e históricas por trás disso e achar maneiras mais inteligentes —e menos violentas— de desarmar essas duas bombas-relógio globais.


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