You are currently viewing Opera Mundi: OMS declara varíola de macacos como emergência de preocupação: o que isso representa?


Não há tratamento específico, mas os quadros clínicos costumam ser leves, sendo necessários o cuidado das lesões. O maior risco de agravamento se refere, em geral, a pessoas imunossuprimidas, como pacientes com HIV/AIDS, leucemia, linfoma, metástase, transplantados, pessoas com doenças autoimunes, gestantes, lactantes e crianças com menos de 8 anos.

Nova vacina?

A desigualdade de acesso às vacinas ainda preocupa, após dois anos de pandemia de covid-19 e 6,3 milhões de mortos ainda há países que não atingiram a meta mínima de 70% da população imunizada contra o vírus sars-cov2. Nos países pobres somente 28% da população idosa de 37% dos trabalhadores de saúde foram vacinados, enquanto em potências europeias, como o Reino Unido, já aplicam a segunda dose de reforço. 

Na nova estratégia de proteção à covid-19, a OMS inclusive aumentou a meta para 100% de vacinação em caso de idosos e profissionais da saúde. 

“Para a varíola dos macacos a gente tem cerca de 1 a 10% de taxa de mortalidade, segundo os dados da África, variando de acordo com a região. E isso é muito mais do que observamos com a covid-19. Com o sars-cov2 a taxa de mortalidade é menor que 1%. Então se a gente não prestar atenção, as pessoas vão começar a morrer por conta de um vírus que já conhecemos, que tem vacina”, alerta a bióloga Patrícia Beltrão Braga.

No sábado (23/07), após a declaração da OMS, o Ministério da Saúde afirmou que o Brasil está preparado para enfrentar a doença —que tem quase 700 casos registrados no país— e articula a compra de vacinas para imunizar a população.

A varíola humana (Smallpox) foi erradicada no Brasil em 1980. Duas vacinas usadas para conter o surto da doença podem surtir efeito com a varíola de macacos. O último caso registrado no país foi em 1977, na época, a taxa de mortalidade pelo vírus era de 30% após contaminação.

“E por que as pessoas deixaram de morrer por varíola? Porque foram vacinadas. Uma das maiores campanhas de vacinação no mundo foi a de varíola. As pessoas foram vacinadas e a doença sumiu”, defende Patrícia Beltrão Braga.

Para a médica cubana, combater a desinformação e os movimentos antivacinas deve ser uma tarefa assumida pelo Estado. “Desde que começou a ideia de que a Cuba poderia ter uma vacina [contra a covid-19], nós já estávamos informando o povo sobre para onde estávamos indo. O segundo detalhe é que não era qualquer pessoa que transmitia essa informação, eram cientistas especializados que deram entrevistas na televisão”, disse Yanaris López.

 Exames do tipo PCR, também aplicados com o novo coronavírus, podem identificar se uma pessoa está infectada com varíola de macacos / Agência Brasil

A ACAM 2000, patenteada pela empresa francesa Sanofi, foi usada na década de 1970 contra a varíola humana e teve o uso autorizado nos EUA contra a varíola de macacos. A fórmula utiliza o virus vaccinia, que se reproduz dentro da célula humana e oferece proteção contra o small pox (vírus da varíola humana) e o monekeypox (vírus da varíola de macacos).

A outra fórmula Imvamune ou Imvanex, produzida pela indústria farmacêutica dinamarquesa Bavarian Nordic, também foi usada no passado em surtos de varíola humana e, na última segunda-feira |(25), foi aprovada na UE para campanhas de imunização contra a varíola de macacos. 

Também utiliza o vírus vaccinia, porém uma versão inativa, incapaz de causar doença grave, inclusive em imunossuprimidos. Com essa fórmula são necessárias duas doses.

“Produzir uma vacina demanda tempo. Não precisamos descobrir a fórmula, porque já a conhecemos, mas produzir o imunizante em larga escala requer tempo. O vírus cresce em cultura de célula e a biologia celular tem um tempo”, diz Braga. 

O Ministério da Saúde afirmou em comunicado que está em tratativas com a Opas e a OMS para aquisição de 50 mil doses da Imvanex para a população brasileira.

O governo de São Paulo disse que há uma disputa “acirrada” pelas vacinas. Segundo o secretário de Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde, David Uip, outra alternativa seria que a Fundação Oswaldo Cruz e o Instituto Butatan passem a produzir fórmulas próprias, mas nesse caso, o tempo de fabricação até a distribuição pode ser de nove meses. 

Além das vacinas, também existem medicamentos com eficiência comprovada contra o vírus. O antiviral Tecovirimat (TPOXX) é recomendado para pacientes em estágio grave da doença nos EUA; o Brincidofovir também foi autorizado para tratar estadunidenses que contraíram o vírus monkeypox. Já no Reino Unido, o antiviral Cidofovir, usado para tratar infecções oculares em pacientes com HIV, também é aplicado em contaminados com varíola de macacos.

“Se a gente começar a ter muitos casos no Brasil, provavelmente a Anvisa irá avaliar para liberar medicamentos que já estão em uso em outras partes do mundo. Portanto é um cenário um pouco mais confortável do que a gente teve com o sars-cov2, que era uma doença que não sabíamos nem como tratar”, defende a microbiologista Patrícia Beltrão Braga.

Protocolos da OMS 

Pela falta de doses suficientes, a OMS estabeleceu um protocolo para o início das campanhas de vacinação. 

Para Estados que não tiveram registros de doentes nos últimos 21 dias, a Organização recomenda aumentar as campanhas de conscientização sobre a doença e intensificar a vigilância epidemiológica com testes de diagnóstico “acessíveis e precisos”. 

Nos países em que foi houve um surto entre animais, mas não se identifica o contágio entre humanos, a OMS sugere a criação de equipes multidisciplinares de Saúde Única entre especialistas de saúde e de zoonoses. 

Já os Estados que registraram os primeiros casos de varíola dos macacos, o organismo sugere implementar uma política de ação rápida para interromper a transmissão entre humanos, isolando as pessoas infectadas, rastreando possíveis contágios e realizando testes para determinar o sequenciamento genômico do vírus.

Nestes casos, a OMS também orienta considerar o uso da vacina como medida de profilaxia para tratar pacientes contaminados. 

No mesmo relatório, do Comitê de Emergência do Regulamento Sanitário Internacional (RSI), os especialistas ressaltam a importância de que Estados com capacidade de fabricação de vacinas trabalhem em conjunto com a OMS para fornecer imunizantes e outros suprimentos necessários de acordo com as “necessidades de saúde pública”.

A diretora do Instituto Pedro Kouri de Cuba ressalta a importância da integração regional para fazer frente à nova emergência sanitária. “Temos que conseguir que todos os países da América Latina se unam. Não somente para políticas econômicas, mas também para ações de prevenção e de conhecimento científico. As fortalezas de um país podem ser oportunidades para outro. Independente das convicções políticas, sempre temos coisas que se parecem, e o que importa é o povo. O que é fundamental é implementar medidas que cuidem da saúde do povo”, disse Yanaris López.

A OMS indica a urgência de “fazer todos os esforços para usar vacinas existentes ou novas contra a varíola dos macacos dentro de uma estrutura de estudos colaborativos, usando métodos de projeto padronizados e ferramentas de coleta de dados para estudos clínicos e de resultados”.





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