You are currently viewing Para Bolsonaro, Presidência é uma alternativa à cadeia. Quem o chantageou? – 05/08/2022


Quando quem está em pauta é Jair Bolsonaro, jamais imagine que se chegou ao limite. O absurdo de hoje é maior do que o de ontem e será menor do que o de amanhã. Ele sempre pode NÃO nos surpreender.

Já havia comentado no programa “O É da Coisa”, na BandNews FM, que o presidente dava a entender por aí que Nunes Marques, um dos dois ministros do Supremo que ele considera meras extensões dos seus desejos (o outro é André Mendonça), teria colocado a faca no seu pescoço para forçá-lo a indicar para o STJ nomes que fossem do gosto de tão notável magistrado. “Que sandice!”, pensei. Então quem manda em quem?

Ou as coisas saíam a seu gosto, ou Kássio com K ameaçava “romper a parceria. Respondendo à pergunta anterior, noto: ninguém pode mandar em ninguém nessa relação, ou ambos cometem crime de responsabilidade. Aliás, a simples parceria já incorre na falta. Um ministro do Supremo, do STJ ou de qualquer outro tribunal tem de ser servo da lei.

Até achei que Bolsonaro estivesse fantasiando. Fiquei à beira de descartar a pressão ilegal. E até notei: “Eu acho a atuação de Nunes Marques detestável, deletéria, nefasta mesmo para o Supremo. Mas não acredito que chegue a tanto”. Ou devo acreditar?

Nesta quinta, o presidente participou, em Guarulhos, de um evento evangélico: a Convenção Geral dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus do Brasil. Mais uma vez, um político participando de um evento religioso. Ele tem misturado frequentemente esses dois domínios. Adiante. E não é que ele disse que foi, de fato, chantageado? Ao indicar nomes tanto para o STF como para o STJ. Os mais recentes para esse segundo tribunal são Messod Azulay e Paulo Sérgio Domingues. Tiveram as bênçãos de Nunes Marques.

Afirmou:
“Essas pessoas que o tempo todo ficam: ‘olha o teu futuro, você tem que fazer isso’, ‘eu não quero esse nome no STJ, tem que ser aquele outro. Para o Supremo, a pressão que eu sofri. ‘Não quero o André Mendonça’. Mas eu tenho um compromisso com os evangélicos! ‘Ah, mas não quero. Tua família deve aqui’. Chantagem!”

Quando alguém na sua posição afirma ter sido chantageado, sem fornecer os respectivos nomes dos chantagistas, devemos entender que o país que ele governa está sob risco adicional. A chantagem contra o presidente da República não diz respeito apenas a um indivíduo. Ela compromete o Brasil e envolve, necessariamente, interesses públicos. Quem chantageia o chefe do Executivo quer o quê? Aproveita-se de qual vulnerabilidade?

Ele está obrigado a dizer. É um absurdo que o mandatário diga um troço como esse e que tudo fique por isso mesmo. Houvesse uma Procuradoria Geral da República digna desse nome, e ele seria interpelado: “Diga quem o chantageou. Diga quem está botando a faca no pescoço não de Vossa Excelência, mas do país”.

Não acontecerá. Até porque poderiam vir a público os motivos que tornam o chefe da nação passível de chantagem.

Pergunta: ele cedeu ou não?

PRISÃO
No evento com os evangélicos, Bolsonaro disse também que está sendo ameaçado de prisão. É mesmo? Por quem? Eu entendo que merece, sim, ser preso, depois do devido processo legal. Crimes comuns, para tanto, não lhe faltam. Exceção feita às duas ações que estão congeladas no STF, de quando ainda era deputado (injúria e apologia do estupro), todos eles estão ligados ao cargo que ocupa. Poderia responder no curso do mandato, mas ações penais só seriam abertas pelo Supremo com a concordância de dois terços da Câmara. Inexistem 342 deputados para que se torne réu.

Os crimes de responsabilidade que cometeu, mais de 40, morrem junto com o seu mandato. Os comuns não. Se não for reeleito, responde a eles na primeira instância. Sim, crimes em penca: contra a saúde pública, durante a pandemia, e contra a ordem democrática e o processo eleitoral.

DESTRAMBELHAMENTO
Voltou, claro, a pôr em dúvida as urnas eletrônicas e, num rasgo que já parece caminhar para o delírio, afirmou:
“Olha, se não tem problema, por que não fazer uma apuração simultânea? […] Você pode ver, como é feita a apuração, por exemplo, da Mega Sena. Essa apuração encerra às 19h. A apuração, não. As apostas. Então está (sic) lá dentro do computador milhões de apostas. Aquilo é feito (sic) um back up, vai para outra sala. Depois, se sorteia (sic) os números. Então, se alguém quiser inserir em um dos lados um bilhete premiado, não vai conseguir porque vai ter que botar na outra sala também. Apuração simultânea é isso”.

Não é só a gramática que é troncha. As ideias também. Isso nem sentido faz. Não há semelhança nem remota entre uma coisa e outra. De qualquer modo, a se julgar pelo delírio, ele não desconfiaria das urnas, mas de manipulações dentro do TSE, como se os aparelhos não emitissem boletins.

ENCERRO
Na reunião com os evangélicos, Bolsonaro expôs seu medo real: perder a eleição e ser preso. É por isso, então, que ele se deixa chantagear por qualquer um que lhe acene com algum conforto, seja no Judiciário, seja no Congresso, tornando-se refém do Centrão.

Que vida! Sequestrado, ameaçado, chantageado e com medo de ir em cana.

A Presidência se transformou num jeito de se livrar da cadeia.

A esse ponto chegamos.





Source link

Deixe um comentário