You are currently viewing Prestes a mudar de governo, Colômbia ainda digere conclusões de sua comissão da verdade


Na semana que passou, a vice-presidenta eleita da Colômbia, Francia Márquez, cumpriu agenda não oficial no Brasil. O governo liderado por Gustavo Petro, o primeiro de esquerda no país sul-americano, tomará posse no próximo dia 7. A população vive um período de transformações, que inclui futuro e passado: recentemente, foi divulgado o relatório da Comissão da Verdade da Colômbia, ou la Comisión para el Esclarecimiento de la Verdad, la Convivencia y la No Repetición. Como o nome indica, o desafio será consolidar a paz em uma região marcada por turbulência e conflitos internos. Uma guerra com quase 9 milhões de vítimas, entre despejados, sequestrados, assassinados e desaparecidos. O documento final ganhou o título de Hay Futuro Si Hay Verdad.

Em 2020, quando o colegiado ainda trabalhava, Francia manifestou esperança de que as conclusões do relatório, divulgado em 28 de junho, fossem úteis para se transformar em ações para viver melhor no país. “Conhecer estas histórias deveria irmanar-nos. Espero que seja um processo transparente e não seja uma verdade acomodada a interesses da política da morte”, afirmou à própria comissão. “Que seja uma verdade que nos permita construir uma política para a vida.” Ela já declarou que pretende instalar comissão similar sobre colonialismo e racismo.

O próprio Petro já recebeu o informe final, em evento público, e prometeu seguir as recomendações. “A aproximação com a verdade não pode ser vista como um espaço de vingança, como se fosse uma extensão das armas”, declarou. A verdade, acrescentou, deve ter como objetivo “a reconciliação, a convivência nacional”.

Acordo de paz

A comissão nasceu como parte do acordo de paz firmado em 2016 entre o governo e as Farc. Foi criada e regulamentada no ano seguinte. O objetivo era esclarecer o que aconteceu durante o conflito armado iniciado em 1958, oferecendo uma “explicação ampla” de sua complexidade e com isso promover um entendimento na sociedade. “Em especial dos aspectos menos conhecidos, como o impacto nas crianças e nos adolescentes e a violência de gênero, entre outros.” A maioria (75%) das vítimas se concentrou no período de 1996 a 2010.

A Comissão da Verdade colombiana se diferencia da maioria, afirmam ainda seus coordenadores. “A maioria das comissões no mundo se estruturou ao final de uma ditadura violenta ou ao término de um conflito. (…) O caso da Colômbia é especial porque não houve tal ditadura; ao contrário, há uma Constituição garantista e ampla nos direitos que consigna uma democracia contínua, e se terminou o confronto entre o Estado e as Farc, a violência articulada com a política e o dinheiro continua de diversas formas. (…) Uma sociedade que, sem passar à página do esquecimento, tenha a coragem de construir sobre as diferenças, incorporando os que se odiaram, para possibilitar um diálogo com respeito que faz a verdadeira democracia.”

Ameaças à comissão

Foram 11 integrantes, sete homens e quatro mulheres. A presidência coube ao padre Francisco de Roux, filósofo e economista. Um processo desafiador e perigoso. Um integrante, além de receber ameaças, teve um de seus seguranças assassinado em Cali. Houve pelo menos duas invasões, da própria sede da comissão e do apartamento de um dos membros, em busca de dados sigilosos.

Iniciados em novembro de 2018, os trabalhos foram descentralizados, com a criação de 28 Casas da Verdade, espalhadas pelos territórios colombianos. “Lugares de acolhida, elas estiveram abertas às vítimas de todo o país, assim como aos responsáveis e testemunhas que quiseram oferecer seu depoimento”, define a comissão. Foram ouvidas aproximadamente 30 mil pessoas, entre entrevistas individuais e coletivas.

Dignidade estraçalhada

Relatos de dor sem fim, em um país “estraçalhado” em sua dignidade, como disse o padre de Roux ao jornal espanhol El País. “Significa (o relatório final) uma experiência muito dura, de ser confrontado com a verdade. E ao mesmo tempo um apelo à esperança. Duro porque passamos por coisas muito profundas. Atravessamos o país mais uma vez e encontramos muitas mulheres estupradas e abusadas”, afirmou o presidente da comissão.





Source link

Deixe um comentário