You are currently viewing Sangue quente dos mamíferos surgiu há 230 milhões de anos – 21/07/2022 – Ciência


​O “sangue quente”, uma das características definidoras do organismo dos seres humanos e dos demais mamíferos, surgiu 230 milhões de anos atrás, no comecinho da Era dos Dinossauros, afirma uma equipe internacional de pesquisadores.

De acordo com eles, essa inovação evolutiva crucial para a nossa linhagem, que permite que os animais mantenham uma temperatura corporal adequada mesmo com as variações de calor e frio do ambiente ao seu redor, é tão antiga que precede inclusive a origem dos mamíferos propriamente ditos.

Os dados que apoiam a hipótese acabam de ser publicados no periódico especializado Nature por um grupo encabeçado pelo português Ricardo Araújo, do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa. “A nossa estimativa para a origem da endotermia [designação técnica do ‘sangue quente’] indica que ela ocorreu no grupo dos mamaliamorfos, entre 35 milhões e 55 milhões de anos antes da origem dos mamíferos”, disse Araújo à Folha.

Junto com colegas europeus, americanos e argentinos, Araújo usou um método engenhoso para estimar como seria a temperatura corporal de animais que viveram no período Triássico, a primeira subdivisão da Era dos Dinossauros. Como é obviamente impossível usar um termômetro em fósseis, o jeito foi levar em conta a conformação do ouvido interno, uma estrutura cujos detalhes estão ligados ao calor do organismo.

Acontece que os animais endotérmicos, além de não passarem por flutuações de temperatura corporal por causa do clima, também costumam ter uma temperatura média mais alta que a de vertebrados que não possuem essa capacidade, como répteis e anfíbios. E isso tem um impacto sobre a maneira como o ouvido interno funciona.

Essa estrutura é formada por uma série de dutos, dentro dos quais circula um fluido chamado endolinfa. O vaivém da endolinfa nesses dutos funciona como um sensor de movimento, ativando células que informam o cérebro sobre a posição da cabeça do animal e ajudando a refinar sua orientação no espaço.

Acontece que a temperatura influencia justamente a maneira como a endolinfa escorre pelos dutos do ouvido interno. “Por isso, o ouvido teve de se adaptar, no caso dos ancestrais dos mamíferos, a essas novas condições de temperaturas mais altas. Pense no velocímetro de um carro: se um dos componentes eletrônicos dele deixasse de funcionar acima dos 25 graus Celsius, você teria de pagar multas bem caras à polícia de São Paulo”, explica Araújo.

No caso, os dutos dos bichos de “sangue quente” ficaram mais estreitos, por exemplo, o que ajuda a datar o momento evolutivo em que a endotermia apareceu.

Aliás, aponta ele, dois importantes fósseis do Triássico encontrados no Rio Grande do Sul —bichos pequenos e provavelmente já com alguns pelos, o Brasilodon e o Riograndia— documentam de forma precisa como a transição ocorreu.

“O Brasilodon é um mamaliamorfo e um dos primeiros animais endotérmicos, mas por outro lado o probainognato Riograndia, um animal basal, era claramente ectotérmico [de sangue frio]”, diz o pesquisador luso.

O processo que deflagrou o aparecimento dessa capacidade nos mamíferos ainda não está totalmente claro. Uma possibilidade é a presença de grandes instabilidades ambientais no Triássico, período que começou muito quente, foi esfriando e depois chegou a uma fase de muitas chuvas e grandes variações climáticas. Isso poderia ter favorecido animais capazes de controlar melhor sua temperatura corporal.

“Por outro lado, os mamaliamorfos já tinham características marcadamente de mamíferos, com a diferenciação dentária (dentes incisivos, caninos e molares), regionalização da coluna vertebral e aumento da capacidade cerebral. Portanto, já havia também um contexto evolutivo que condicionou a origem da endotermia”, conclui Araújo.

O outro grupo de vertebrados atuais com sangue quente, as aves, provavelmente atingiu resultados semelhantes em sua fisiologia de forma independente, a partir das características do subgrupo de dinossauros ao qual pertenciam.



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