You are currently viewing Servidor que atacou chefe da Funai denunciou ligação entre milícia e órgão – 21/07/2022


Ricardo Rao, o ex-servidor da Funai que fez um protesto contra o presidente da instituição, Marcelo Xavier, já acusou a chefia do órgão de crimes e denunciou a presença da conexão entre a milícia e o órgão federal.

Nesta quinta-feira, Xavier deixou um evento em Madri, depois de que passou a ser atacado por Rao, que questionava sua presença em uma reunião internacional sobre a questão indígena. Outras entidades também planejam realizar protestos durante o dia de hoje contra a presença de Xavier.

Constrangido diante das acusações feitas por Rao, o presidente da Funai deixou o local. O incidente ocorreu na XV Assembleia Geral da FILAC, Fundo para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas da América Latina e Caribe.

Rao, porém, já havia apresentado à Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados um dossiê no qual ele acusava o órgão de ter sido desmontado nas mãos de Bolsonaro e como a Funai passou a ser controlada por milícias.

Dois dias depois, em 28 de novembro de 2019, ele embarcou para Oslo, onde pediu asilo por conta das ameaças que estava sofrendo. Seu pleito ainda foi sustentado por cartas enviadas por deputados para o rei da Noruega, ao primeiro-ministro e ao parlamento.

Com sua base em Imperatriz, no Maranhão, o indigenista relatou como houve uma tentativa deliberada por parte da chefia do órgão para impedir que ele realizasse operações contra o crime organizado.

Em meados de 2019, na aldeia São José, Rao recebeu mais um alerta de que invasores estariam atuando dentro de uma área homologada. Ao chegar no local, o indigenista confiscou armas numa das fazendas dentro das terras indígenas.

Segundo ele, uma viatura com “cinco milicianos armados, incluindo PM” apareceu na região e entrou em uma aldeia “mostrando armas para todos”. “Mas, para minha surpresa, na viatura estava o dono das armas”, disse o ex-agente. “Fui ameaçado de todo o jeito e dizendo que queriam as armas de volta”, relatou.

As ameaças, segundo ele, foram seguidas por um forte assédio judicial. “Depois dessa ameaça, começou um monte de denúncias falsas, nos acusando de roubos”, disse Rao, indicando manobras de constrangimento. “Percebemos que o cerco estava se fechando e não tínhamos o apoio de nenhum militar”, disse.

A pressão, segundo ele, também envolvia processos contra indígenas que tinham feito parte das operações da Funai. Rao conta que ele e líderes locais foram intimados pelas autoridades do município de Montes Altos. “Quando chegamos lá, descobrimos que os depoimentos já estavam prontos e que apenas pediam que os indígenas assinassem. Eram inquéritos forjados”, alegou.

Rao ainda conta que, dias depois dos inquéritos forjados, a Abin(Agência Brasileira de Inteligência) apareceu em sua base da Funai, enquanto alguns dos suspeitos também rondavam o local. “Estavam nos mandando mensagens”, disse. Procurada, a agência negou qualquer ação contra “Rao. A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) mantém contatos institucionais frequentes com a Fundação Nacional do Índio (Funai). Os órgãos possuem longa e sólida parceria no acompanhamento da temática indígena e, neste cenário, a realização de visitas institucionais são frequentes”, explicou a Abin.

“Oficiais de Inteligência da ABIN visitaram a Coordenação Regional da Funai no Maranhão, localizada em Imperatriz/MA, duas vezes em 2019. Em ambas as ocasiões, as visitas foram institucionais e se resumiram a encontros com o coordenador regional substituto da Fundação. As reuniões abordaram questões ligadas a temática indígena e o oferecimento de bens para doação”, diz a entidade.

“Em nenhum momento foi tratado de eventual processo disciplinar contra quaisquer dos servidores da Fundação Nacional do Índio, assunto sobre o qual a Agência não tem qualquer competência. A ABIN jamais teve processo, investigação ou monitoramento do ex-servidor Ricardo Rao”, completa.

Rao, porém, diz que um dia depois da presença da Abin, uma equipe da corregedoria foi lhe visitar e anunciou que estava sendo investigado por um processo administrativo disciplinar. “A denúncia era de crime de ameaça contra outro funcionário. Eu não reconheci o processo e não assinei. Mas naquele momento eu vi que não tinha mais condição de trabalho”, explicou.

Segundo ele, nas semanas que se seguiram, funcionários pediram licenças ou anteciparam aposentadorias. “Houve um clima de debandada”, disse.
Já pensando em sair, Rao foi até uma das aldeias para conversar com as lideranças locais. Ali, encontrou com Paulo Paulino Guajajara, um indígena que atuava pela proteção da floresta.

“Ele me contou que havia uma suspeita de uma grande plantação de maconha na floresta e a chegada de um PM do Rio”, disse. “Mas não houve tempo para saber se era verdade”, lamentou. Duas semanas depois, um homem “me grudou uma pistola na cabeça”. “E me disse: quem fica lambendo cude índio aqui não dura. Vaza”, relatou. Rao suspeita que aquele era o PM do Rio. “Pouco depois, mataram [o líder indígena] Paulo Paulino. E ai foi quando eu vi que eu estava condenado. Eu ia ser o próximo”, completou.





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